A escrita-espetáculo
Atualizado: 27 de set.

Samara Hartt
Respeitável público!
Hoje à noite vocês presenciarão o processo de escrita da autora Samara Hartt, que deve escrever contos para o livro “Da bailarina à palhaça: histórias de mulheres”, o qual será publicado em novembro. Será que ela vai conseguir ou a síndrome da impostora vai derrubá-la da corda bamba? Será que ela conseguirá domar a fera da procrastinação? É o que vamos assistir.
O primeiro desafio de Samara é conciliar a escrita com outros trabalhos e todo o resto da vida. É um verdadeiro malabarismo trabalhar em sala de roteiro de uma série, produzir um cineclube, ah, apareceu uma leitura crítica para fazer, e não se esqueça de fazer exercícios, ler livros, a vida social é importante também... Ei, já fez os quinze minutos de Duolingo do dia que se propôs a fazer este ano? Mas ela consegue, ou pelo menos tenta. Até que consegue tirar um dia para, finalmente, começar a escrever. Então, dois parágrafos são escritos, sofridos, mas apresentam uma personagem que nossa escritora tem vontade de desenvolver, o que a deixa satisfeita. Talvez semana que vem ela consiga tirar mais um dia para continuar.
Outro desafio é apresentar uma escrita com graça, assim como uma acrobata que finge nem fazer força para executar seus movimentos-coreografia. Desta forma, na segunda vez que abre o arquivo Word, Samara começa a reescrever o conto em uma linguagem mais fluida, pois o jeito anterior estava duro demais, jogando o conflito da narrativa sem introdução ou delicadeza, expondo o esforço da escritora e tirando a possibilidade de fascínio do público, dos leitores, fundamental em um livro-circo. Na escrita, apagar tudo e reescrever faz parte do processo e é muitas vezes necessário. Agora, sim. O tom do conto foi encontrado, então Samara tem tudo para terminá-lo em poucos dias. Será?
Depois de mais dias conturbados, Samara consegue algumas horas de silêncio e quietude. A escrita exige isso, uma solidão essencial, um tempo diferente daquele a que estamos acostumados. Como o silêncio-expectativa do público à espera de ver a escapista se libertar das correntes, é preciso silenciar o mundo em volta para libertar as palavras. Quando Samara chega nesse espaço-tempo de silêncio e solidão pela terceira vez, percebe que sua protagonista possui três conflitos para resolver, não só o principal, que a escritora havia planejado antes de começar a escrever, e então ela se dá conta de que não acabará o conto tão cedo, pois, de alguma forma, a história está pedindo mais desenvolvimento e as pontas soltas dos conflitos precisam ser atadas. A autora se preocupa, pois este é só o primeiro conto, já estamos em julho, e ela deve escrever outros, mas segue em frente. O jeito é procurar mais vezes a solidão para encontrar a narrativa.
A cada dia, Samara percebe que escrever é ensaiar. Todo bom palhaço já contou piadas ruins, mas ensaiou e aprimorou seu trabalho antes das melhores apresentações. Para escrever, devemos ter a mesma paciência do palhaço que busca fazer o público rir, com a vantagem de que ninguém vê nossos ensaios, nossas falhas, nossas palavras fora de lugar. E, de ensaio em ensaio, Samara finalmente consegue terminar seu conto. Ou, pelo menos, uma primeira versão.
Todo espetáculo tem uma diretora ou um diretor que analisa as apresentações e aponta melhorias. Na escrita, muitas vezes estamos sozinhos e tentamos nos distanciar para voltar e olhar o texto com os olhos de fora. É nesse momento que Samara se encontra, mas, para sua sorte, ela não está sozinha, pois tem outras pessoas para quem enviar seu conto, que poderão emprestar seus olhos de diretores, e por eles a escritora tem toda a gratidão. Assim, comentários são dados e Samara consegue ver as falhas que antes sentia, mas não enxergava, e então se esforça para corrigi-las.
A apresentação-conto está finalmente pronta e aguarda os outros contos para juntos se tornarem circo-livro. O tempo parece não favorecer o trabalho da escritora, mas, de alguma forma, a finalização do primeiro conto lhe dá ânimo para desenvolver os outros e encarar novos desafios e ensaios.
Respeitável público, quando estamos na plateia ou na página aberta, tudo parece mágico. As contorcionistas parecem que sempre colocaram os pés na cabeça, enquanto os escritores parecem que apenas deixaram a imaginação fluir, mas não. Cada gesto e cada frase foram trabalhados com muito suor, determinação e a vontade de fazer arte. Pode parecer difícil para alguns, mas acreditem: para quem produz arte, o processo é a magia que nos preenche e nos mostra que tudo vale a pena.
Samara Hartt adora contar histórias, seja nas letras, seja no audiovisual, por isso se graduou em Cinema na UFSC e fez cursos de escrita criativa, leitura crítica e mercado editorial. Na literatura, é autora da novela epistolar A Gaveta de Aurélia e de contos nas coletâneas do coletivo Uma Casa Toda Nossa, do qual faz parte. No cinema, trabalha como roteirista, produtora e diretora.
Este conteúdo faz parte do projeto “Da bailarina à palhaça: histórias de mulheres”. Proposta executada pelo Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Política Nacional Aldir Blanc.



Comentários