Para casa
Atualizado: 5 de out.
Érika Gentile

Tenho fechado muito portas, por isso estou monotemática.
Desde a morte de minha mãe em 2014, a vida se transformou num interminável separar, vender, trocar, doar, descartar, verbos conjugados para coisas grandiosas e insignificantes, verbos conclamando a iminente separação. Coisas e mortos são escavados na casa órfã. Alguns, os desavisados, certamente pensam no pragmatismo do gesto, comentam sobre o cansaço e a trabalheira. Dispenso alguma ternura aos inocentes, já estive em seus lugares, também atribuí à uma coleção de revistas velhas o valor de revistas velhas na pilha de reciclagem. A visão de quem não tem um morto para dissecar é sempre a fronteira, não podem e não querem entrar, são crianças não vacinadas, resgatam de uma memória distante a morte desconhecida, mas não suspeitam das obsessões constituídas pelo luto.
Lembro-me de arrumar a gaveta da cômoda da minha mãe, guardava agulha e linha, tesoura e pinça, batom e esmalte, lembro-me de sentir o cheiro de água de rosas e de desejar desesperadamente chorar, mas só tinha aquele pé no peito, um peso, uma massa condensada de sentimentos inomináveis, uma loucura de não ter feito o possível para conhecer minha mãe, conhecer minha mãe nos detalhes, saber o número do rosa do seu batom, qual seu terço preferido, o que lhe ia, antes de ela ir.
Minha mãe, junto da sua casa, seus pertences, a coleção de fotos três por quatro, ainda está aqui. Aos poucos, ocupou o lugar do pé no peito, encontro-me com ela nas minúcias do caderno de receitas, em sonhos, no último, ela me abraçou como se eu fosse uma criança, e, enquanto escrevo, ainda sinto o calor.
Enfrento, nessa fase da vida, a possibilidade de fechar a casa onde moro há vinte e cinco anos, a casa onde criei minha filha, onde viveram Marieta e Lola, nossas cachorras, esse endereço me acolhendo todas as manhãs na poltrona da sala, com vista para as tumbérgias azuis a filtrar o sol, trazendo cambacicas, sanhaços, periquitos, sabiás, rolinhas, bem-te-vis, beija-flores, abelhas e borboletas. Tudo voa à minha frente, às vezes uma cena se pendura entre as flores e meu pai prepara o anzol para pescar, outra hora, estamos sentados na beira do sofá, chorando um avô morto, tem as crianças correndo, adolescentes espalhando objetos pela casa, uma mãe exausta, um pai apreensivo, alguém chegando, uma festa, um dever de casa, a jabuticabeira explodindo em frutos, uma calha entupida, um vendaval, a chuva de terra.
A casa é maior quando encaixotamos.
Encaixotar. Mudar para a cachola. Encasquetar.
Diria isso ao doutor, se fosse o caso, estou muito encasquetada, e travaríamos o diálogo impossível, com o quê, minha filha, o número do batom rosa de minha mãe, na primeira gaveta da cômoda. Não se preocupe, é virose ou nervos, mas para ambos há remédios. Ele faria duas receitas para eu aviar na farmácia, na esquina de casa, uma farmácia sem nome de família, uma dessas de rede, cores e logotipos de neon, sem qualquer arquitetura, feita para amenizar o sentido brutal das mudanças.
Gosto de casas cheirando bolo, únicas, vibrando nas características próprias de seus moradores, casas feitas de mosaicos, dos refugos, como aqueles caquinhos dos 1940, cujas janelas e portas se abrem para o improvável. Um gavião descansando no espaldar da cadeira. Não duvidem de mim, moro em Cuiabá, esse lugar onde tudo acontece de um jeito onírico.
Talvez por isso, por causa do imaginário, e das coisas encasquetadas, é que coube a mim, no rodízio das Portas Abertas, escrever a newsletter dessa Casa, justo no meio de mais uma mudança.
Venha, traga seu texto, diz o convite.
Aos cacos, vou.
Érika Gentile dedica-se ao estudo da escrita criativa desde 2012. Publicou, através de concursos e chamadas, em antologias, coletâneas e revistas literárias, como Revista Mathilda, Ruído Manifesto, Uma Casa Toda Nossa, Coletivo Escreviventes em parceria com Primavera Editorial. Figura entre os autores do Acervo de Literatura Digital Mato Grossense, integra o Coletivo Literário Maria Taquara — Mulherio das Letras (MT) e o Coletivo Escreviventes. Autora da newsletter Ponta Porosa https://substack.com/@erikagentile (Instagram: @erikagentile).



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