Mentiras opacas
Atualizado: 5 de out.
Márcia Drumond

Eu era um pedaço de carne disforme quando Juliana chegou. Não consegui olhá-la nos olhos, mas notei que eram castanhos pelo reflexo da janela – embora o astigmatismo desses contornos brilhantes ao redor da pupila. O efeito fez com que ela se tornasse meio anjo, meio demônio, diante de mim. Nessa época, eu era como uma chama de fogão quase sem gás: o vermelho consumindo o azul, no desespero de fornecer calor onde já não existe mais força.
A vida é mesmo curiosa, eu jamais esperava encontrar uma pessoa tão livre – logo eu, tomada por arame farpado ao redor dos braços curtos. Enquanto isso, Juliana abraçava o mundo enquanto flutuava de pés descalços.
Nossas conversas eram quase monólogos. Eu não entendia aquele horizonte ilimitado de possibilidades, porque meu mundo só cabia em minhas mãos toscas. No dia que Juliana as tocou, eu estremeci feito criança na beira da piscina com frio. Ela riu de canto e eu paralisei.
Naquele momento, Juliana parece ter me desafiado para o maior duelo da minha vida: eu versus eu. Mas justo eu, menina do interior do interior, devota de todos os Santos, me despindo de mim, para enfrentar a mim mesma. Quem perde? Tudo é nó. E do nada me encontro no desencontro.
Minha chama está acesa, o mundo é meu, eu sou minha. Do duelo, só guardo cicatrizes. Desde então, Juliana sussurra mentiras opacas no meu ouvido. Eu acredito, Juliana é a santa agora.
Márcia Drumond é historiadora e filósofa de formação, mas a vida traçou caminhos inusitados ao longo do percurso. Rabisca palavras desde cedo, mas só agora decidiu vestir a nudez da escrita, ainda que torta e sem jeito, da forma com que sempre desfrutou da vida.



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