top of page

A força da ancestralidade

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
12 de ago. de 2025
4 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Thereza Angelo



Eu zapeava por uma livraria em busca de um livro para presentear uma amiga quando me deparei com um título que atraiu minha atenção: Vó, me conta a sua história?

Dividido em cinco capítulos, ele conduz a presenteada vovó, por meio de perguntas, a contar sua história e compartilhar recordações e memórias por escrito, por fotos e desenhos.


Mesmo sem ainda ser avó, mas com um desejo visceral de sê-lo, me lembrei da minha avó e da minha infância passada na barra de sua saia, ou sentada no degrau da cozinha, ouvindo suas histórias e compartilhando de suas recordações. Ora boas e alegres. Ora tristes e doídas.


Enquanto folheava “o caderno” eu ia respondendo silenciosamente às perguntas e de repente eu estava contando minha história em uma silenciosa e deliciosa conversa com minha ancestralidade e minha descendência.


Imediatamente percebi que nós, mulheres, matriarcas, temos muito o que contar para as gerações que nos seguem. Não podemos guardar só para nós tantas memórias, recordações, fatos que impactaram direta, ou indiretamente, a vinda ao mundo dos nossos descendentes. A ancestralidade é um legado do qual não escapamos e muito menos podemos sonegar aos que nos seguem.


A saudade daqueles dias da infância bateu forte e encheu meus olhos de lágrimas. Minha avó não me deixou um diário escrito, um livro de memórias ou recordações, nem mesmo um livro de receitas. Também não me deixou muitas fotos, o que absolutamente me impediu de construir imagens tão vívidas quanto as de uma fotografia. Sua ancestralidade se manifestou pela oralidade e pelos gestos.


Percebi como relatos orais são poderosos, pois são carregados de nuances e emoções. Quando estudei História da África, aprendi que as sociedades africanas são construídas e mantidas sob a força do feminino, da ancestralidade, da história oral e da beleza de se compartilhar experiências e conhecimento através da voz do feminino. Vovó não tinha consciência da beleza da oralidade, apesar de ter ascendência africana, mas trazia isso no seu DNA.


Naquele momento viajei no tempo. A livraria se transformou na sua cozinha aquecida. Senti o cheiro de sua comida e o som de sua voz suave me chamando de filha. Que saudade!!


Aos 60 anos minha avó já era considerada velha, apesar de sua energia para as atividades domésticas. Cuidava da casa e de mim com maestria. Também costurava, fazia crochê, bordava e cuidava de suas roseiras. Foi totalmente dependente financeiramente das filhas. Não tinha aposentadoria, pois nunca havia tido um ofício fora de casa. Recebia uma mesada do filho mais velho, que gastava com alegria em doces e brinquedos para mim. Nunca ouvi uma reclamação sair de sua boca acerca da vida que lhe coube desde que enviuvou. Sem ambições, projetos ou sonhos, me parecia conformada e feliz.


Por outro lado, eu, já passada dos 60, ainda não era avó. Meus filhos, já na casa dos trinta, ainda estavam abrindo picadas e criando raízes. Pela Lei sou idosa, e não velha. Divorciada e aposentada, não dependo de ninguém. Tenho meu próprio dinheiro e faço dele o uso que bem entendo. Sem precisar dar satisfações, vou e venho sem pressa, degustando a vida com vagar e extraindo dela o máximo de prazer, tipo “deixa a vida me levar, vida leva eu”.


Entretanto, é impossível não refletir sobre o ser “velho” hoje e o ser velho no século passado. Nos papéis, cartilhas, legislações etc., envelhecer hoje é ter autonomia, uma vida plena, independência e bem-estar. É ter qualidade de vida. É ser participativo e estar inserido em atividades culturais, sociais, econômicas, espirituais e cívicas. Não é porque passamos dos 60, 70 ou 80 que não temos mais nada a dizer, a contribuir, ou a usufruir. Temos vida enquanto estivermos vivos, apesar das limitações que chegam para qualquer um.


Apesar de nomenclatura nova, cartilhas, estatutos, fila e estacionamento preferenciais, políticas públicas etc., ser idoso no século 21 é ótimo, só que nem sempre, principalmente quando somos alvos do ageísmo, uma expressão carregada de preconceito, estereótipos e discriminação em relação à idade mais avançada.


Dói quando uma oportunidade de trabalho nos é negada baseada única e exclusivamente pela nossa idade cronológica. Dói quando nossa opinião nem é considerada pelo fato de sermos de uma outra geração. Dói saber que a nossa experiência, malhada a ferro e a fogo por longuíssimos anos, é rebatida frequentemente por quem mal saiu dos cueiros, com frases como: “no seu tempo era diferente”; “isso era no seu tempo”. E que tempo é esse? O meu tempo é o agora, pô! Embaixo dos meus cabelos grisalhos ou brancos tem um cérebro pensante.


E de saudade em saudade, de dor em dor, cheguei até aqui, em um espaço que exala cultura e em busca de cultura. Aos 60 me sinto plena pelas experiências vividas ontem e completamente aberta e pronta para as que estão me esperando do lado de fora da livraria e rumo ao amanhã, sem medo de ser feliz.


Enquanto espero meus netos, vou me formatando para ser avó. Quero ser uma avó como foi a minha. Quero cativar meus netos, contar-lhes minhas histórias e compartilhar memórias.


Movida por tanta saudade e emoção comprei o tal “caderno” para dar de presente a minha amiga e, como a esperança é a última que morre, comprei um para mim também.


Thereza Angelo vive desde a adolescência em Brasília. Foi bancária por 30 anos. Depois de aposentada voltou a estudar e formou-se em História. Começou a escrever durante a pandemia para acalentar as dores e prazeres provocados pela quarentena, e para acalmar a alma e o coração saudosos de tudo e todos. Participou de algumas coletâneas.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page