top of page

Cálice — ou CALE-SE?

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
17 de jun. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Vitoria Vezzaro


Livro sendo queimado

"Pai, afasta de mim esse cálice/de vinho tinto de sangue". Frase forte para um refrão, não? Eu achei. Mesmo a música tendo mais de 40 anos, continua sendo tão atual e representando os sentimentos de tanta gente como na época em que a escreveram. Quantas vezes ao dia nos esforçamos para afastar o CALE-SE que a sociedade joga sobre nós? Quantas palavras que deveriam ser ditas e que queríamos dizer, mas que ficam presas em nossa garganta pelo CALE-SE que jogamos em nós mesmos? "Quero lançar um grito desumano/que é uma maneira de ser escutado". Às vezes é assim mesmo: queremos gritar pois o silêncio nos soa mais ensurdecedor. O silêncio onde deveria haver a palavra.

Nessa sociedade moderna com tanta facilidade em se comunicar com o mundo a sua volta, penso eu que ainda existem muitos problemas causados pela falta dela. Falta de comunicação pelo CALE-SE jogado em cima de alguém ou de uma situação. E isso em várias áreas: o CALE-SE jogado em um assassinato cujos envolvidos são pessoas de autoridade. O CALE-SE jogado naquela pessoa que sofre por uma situação passada que nem foi culpa dela. O CALE-SE jogado na mulher agredida que se sente acuada a ponto de não denunciar seu agressor por medo do julgamento da nossa sociedade machista. O CALE-SE jogado em alguém cujos argumentos e opiniões, apesar de consistentes e válidos, vão contra o que a maioria pensa.


"Como é difícil acordar calado", como é difícil sentir que você deve falar alguma coisa, mas ao mesmo tempo saber que não fará a menor diferença! Como é ruim se sentir impotente, sem poder para mudar algo que você sabe que está errado! "Mesmo calada a boca resta o peito". E o peito sente. O coração se lamenta. Se lamenta pelo quê? Por ser humano. Por sentir. Quem dera eu não sentisse...


"Mesmo calado o peito resta a cuca". Eis o pior. O coração já aceitou, mas a cabeça ainda procura entender como tudo aconteceu apenas por algumas palavras não ditas. A falta de comunicação, a falta da palavra. Logo nessa sociedade tão comunicativa. É, parece que afastar o CALE-SE é mais difícil do que se pensava…


Referências:

Música “Cálice”, composta por Francisco Buarque De Hollanda e Gilberto Passos Gil Moreira


Vitória Vezzaro é paulista e mora na Alemanha desde 2019. Em 22 anos, publicou o livro Reescrevendo Meus Versos independentemente, participou de algumas antologias no Brasil e na Alemanha e, recentemente, começou no Substack, onde publica — em inglês, português e alemão — não somente histórias mas também suas experiências como mulher autista.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page