Eu até menti pra você
Atualizado: 5 de out.
Karol Sueto Moreira

Dia desses fui até a casa da minha mãe levar o exemplar de Um corpo ainda é pouco, coletânea de contos organizada pelo coletivo e lançada em julho de 2024. Na dedicatória, coloquei minha gratidão — coisa que penso muito e falo pouco — por ela ter sido sempre a pessoa que mais acreditou em mim e incentivou minhas maluquices, inclusive levando para casa resmas e resmas de papel já utilizado de um dos lados, que transformava com carinho em blocos com capa de cartolina cor de rosa, para que eu pudesse escrever meus poemas e rascunhos no verso. Ela terminou a leitura da dedicatória com olhos marejados, sorriu e me disse, com certo orgulho: “eu fiz o que podia. Eu até menti pra você”.
Explico: minha mãe teve uma relação difícil com a escola. Ela não fala muito a respeito, mas acredito que a combinação de pais e professores autoritários com uma didática que se baseava na decoreba não a tenha ajudado a se sentir em casa naquele que deveria ser um lugar de acolhimento e aprendizado. O resultado é que finalizou o ensino fundamental aos trancos e barrancos e só foi fazer o médio muitos anos depois, quando eu já era adolescente. E desde essa época sempre a ouvi dizer que detestava ler.
Mas uma coisa que sempre teve em mente foi a importância do estudo, especialmente no contexto em que vivíamos (“a educação é a única herança que podemos deixar”, ela e meu pai repetiam sempre). Por isso, encarou o desafio de nos colocar em uma escola pública modelo, mesmo longe de casa, e fazer os sacrifícios necessários para que sempre tivéssemos os materiais e o incentivo para estudar. É aí que entra a mentira.
Muitas vezes, à tarde, depois da escola e do dever de casa, ela se sentava na minha frente, de modo que eu via seus olhos se movendo pelas páginas, mas não o texto que se escondia dentro do enorme livro de capa dura marrom. Eu pegava meu livrinho e abria também. De vez em quando, olhava de soslaio para ver se já tinha se cansado, mas ela continuava, inexorável. E então eu lia.
Com o tempo, passei a devorar tudo o que me caía nas mãos. Textos adequados para a minha idade, outros nem tanto. Enciclopédias (eu tinha especial amor por elas) e dicionários, revistinhas e almanaques. Virei uma grande frequentadora de bibliotecas: a da escola, a da faculdade, a pública estadual. Meu passatempo preferido era ler e passei a me arriscar também na escrita. Minha mãe, com a sensação de dever cumprido, não punha mais as mãos no volume de capa dura marrom, nem se aproximava da estante.
Muitos anos depois, confidenciou que sabia que o exemplo era importante para que me tornasse uma leitora, por isso pegava qualquer tomo da antiga Mirador que morava no armário. A grande mentira era que, como não gostava de passar horas mergulhadas nas palavras, “burlava” as regras: se posicionava de maneira que eu não conseguisse enxergar e colocava entre as páginas uma revistinha da Turma da Mônica, com a qual se distraía enquanto eu vivia as aventuras das minhas histórias. Tantas tardes em que eu, embevecida, a admirava por aquela leitura grande e interminável. Tantas tardes em que ela me enganou, enquanto se enganava, já que, para me fazer leitora, acabava lendo também, ainda que não tenha se dado conta disso.
Eu acreditei, mãe. Obrigada por mentir pra mim.
Karol Sueto Moreira nasceu Carolina — mas prefere Karol — um pouquinho antes da primavera, quando as paineiras ainda enfeitam BH com sementinhas envoltas em algodão. É formada em Letras e foi professora por bastante tempo. Faz parte da Casa desde o início, como gestora, escritora e revisora.



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