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Filho é do mundo

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
8 de abr.
2 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Maria Gabriela Cardoso


Bebê no colo de uma pessoa, envolvido em uma manta bege.  Se vê parcialmente o rosto do bebê e a mãozinha.

O sonho de ser pai às vezes termina quando o filho nasce


e se descobre que violência não vem só com o punho,


mas também com o abandono, frieza e descaso.


No registro, uma lacuna, no currículo, um obstáculo: “tem filhos?”, o emprego recusa.


Ela vende cosméticos, marmita e bolo de pote; faltam creches? Leva junto! Mãe tem que dar um jeito! E o genitor ainda humilha antes de dar duzentos reais, que não dão nem pras fraldas da semana.


Nas ruas do bairro, alguns perguntavam: “Por que não escolheu um homem melhor?” O que ninguém sabia é que o relacionamento


tinha sido bom, e o filho, sonhado pelos dois.


Mas isso não resistiu ao término e assim se tornou mãe solo.


Na gravidez, cuidou da saúde: “Quero proporcionar um parto normal para o meu filho.” Mas precisou passar por uma cesárea de emergência. Se sentiu a pior mãe do mundo e foi julgada pela família: “Antigamente as mulheres só faziam parto normal, isso de cesárea é frescura de hoje em dia.”


No primeiro banho, deixou cair sabão nos olhos do bebê, ele chorou, ela chorou junto.  Acreditava que não servia para a maternidade,  enquanto todos repetiam:  “Mulher já nasce com esse instinto.”


O que ninguém via era sua luta diária para aprender a ser mãe:  a troca de fraldas, as massagens para as cólicas,  a amamentação… E, se fosse preciso,


assumia também o papel de enfermeira, pedagoga,


cozinheira e costureira.


Mesmo com tanto esforço, nunca faltavam opiniões alheias.  Mas ninguém ajudava nas noites em claro,  na alimentação desregulada, na possível depressão pós-parto,  ou na falta de tempo até para tomar banho.


Só ela sabia que milhões de mães são chamadas de “guerreiras”  quando, na verdade, são apenas “sobrecarregadas”,  carregando sozinhas a responsabilidade por um filho  que dizem ser do mundo, mas que só por elas é criado.


Maria Gabriela Cardoso é autora do livro Dos Pés ao Palato, que foi finalista do prêmio Carolina Maria de Jesus, do Ministério da Cultura. Idealizadora do Coletivo Escribas e da Revista Escribas, faz parte de instituições que visam os direitos das mulheres, LGBTQIA+ e do meio ambiente.

 
 
 

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