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Memórias

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
8 de set. de 2025
3 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Samara Hartt


Mala cheia de fotografias antigas

Eu tive uma infância orgulhosamente sedentária, na qual uma das minhas brincadeiras preferidas era ficar no quarto escrevendo e desenhando histórias em quadrinhos. Porém, quando descobri que depois dos trinta você começa a perder massa muscular e o sedentarismo passa a ser cada vez mais perigoso para a saúde, comecei a fazer musculação, e, para não tornar a tarefa insuportável, passei a ouvir audiobooks enquanto treino.


Eis que me encontro, entre uma série de cadeira abdutora e outra, ouvindo as palavras de Simone de Beauvoir e pensando em meu avô. Estou lendo Memórias de uma moça bem-comportada, livro em que a autora narra seus primeiros anos de vida. O que me fez lembrar de meu avô foi Simone contar como seus pais incentivavam seu gosto pela leitura e pela escrita.


Eu tive a sorte de nascer em uma família que me proporcionou muitas leituras. Antes de dormir, minha mãe sempre nos contava algum conto dos irmãos Grimm, e quando eu ia visitar meu pai, sempre tinha um novo gibi da Turma da Mônica para eu me divertir. Mas o maior entusiasta do meu gosto pela leitura e pela escrita era meu avô Antônio. Incontáveis são os livros que tenho na estante com bonitas dedicatórias em suas feias letras de médico (apesar de delegado), e eu quase posso ouvir sua voz quando as leio.


Outra memória que guardo na gaveta é de um pequeno livro de contos produzido em férias de verão que aconteceram há mais ou menos vinte anos. Eu, ainda uma pré-adolescente, pegaria um avião sozinha para visitá-lo. Ele ficou tão preocupado que sonhou comigo, um sonho louco em que eu pastoreava ovelhas. Este sonho foi transformado em conto e assim meu avô inspirou um verão de netos escrevendo seus próprios contos e ilustrando com horrendos desenhos de Paint. O resultado foi minha primeira coletânea, Contos Natalinos, escrita pelos primos Hartt e o avô Lopes da Fonte.


As memórias me levam para momentos de alegria, mas também de tristeza, como quando, eu tinha quatorze anos, minha mãe contou que Antônio foi diagnosticado com câncer. Meu primeiro pensamento, talvez um pouco egoísta, foi que ele, que sempre me incentivou tanto a escrever, não veria publicado o livro que eu estava escrevendo, não veria eu me tornar escritora. Naquela época, o diagnóstico de câncer era, para mim, uma notícia fatalista, mas não foi para ele, que sobreviveu depois de anos de muita luta.


Ele sobreviveu para se lembrar e ser lembrado. Foi então que começou a escrever suas memórias, seu último exemplo, para mim, do ofício da escrita. Trabalho este que não era nada fácil. Ele passava madrugadas escrevendo e reescrevendo, sempre descontente, imagino, com o seu estilo, a cadência das palavras, a estrutura narrativa, coisas que incomodam qualquer escritor perfeccionista.


Então ele passou a não se lembrar mais de muitas dessas histórias, mas eu me lembro. Nós nos lembramos. Há alguns verões, minha tia organizou em livro e imprimiu as suas memórias, repetindo o que ele fez há vinte anos com os nossos contos, e lhe deu de presente de Natal. Mas, além do livro, suas memórias também estão aqui, em nós que ouvimos suas histórias e partilhamos momentos de sua biografia. Antes, nós nos lembrávamos por ele. Hoje ele vive nas nossas lembranças.


Mulher cis branca, de cabelos escuros presos, abraçada a um senhor branco de cabelos bem branquinhos e de suspensório

Samara Hartt adora contar histórias, seja nas letras, seja no audiovisual, por isso se graduou em Cinema na UFSC e fez cursos de escrita criativa, leitura crítica e mercado editorial. Na literatura, é autora da novela epistolar A Gaveta de Aurélia e de contos nas coletâneas do coletivo Uma Casa Toda Nossa, do qual faz parte. No cinema, trabalha como roteirista, produtora e diretora.

 
 
 

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