O circo chegou!
Atualizado: 27 de set.

Michele Fernandes
O ingresso:
Samara Hartt, ainda no ano passado, me fez um convite que soou um pouco inusitado: escrever um livro de contos com ela, cuja temática era a vida das mulheres circenses. Minha vida não é nem um pouco itinerante, pelo contrário, eu poderia ser considerada uma pessoa reclusa aos olhos de muitos, pois me acostumei a trabalhar e socializar pela internet — mais do que um hábito, uma adaptação necessária para uma pessoa autista que precisa de previsibilidade e refúgio do excesso de estímulos sensoriais a que somos expostos a cada saída em público. Mas a escrita, essa sim, é o centro do meu picadeiro, eu não resisti, aceitei.
Levantando a lona:
Comecei a puxar na memória tudo o que sei sobre circo. Coisas do passado saíram de trás da cortina, como os pequenos circos que vinham ao meu bairro, durante a infância. Na época, a legislação permitia animais, e a criançada ia até o campinho onde o circo ficava estabelecido só para ver os leões, ursos e elefantes, ainda mais encantadores no universo anterior ao da internet. Lembrei, ainda, de um livro que marcou a minha infância, “O Circo Viramundo e o Palhaço Estouro”, de Graziela Lydia Monteiro, ah, um dos meus preferidos daquela época! Recordei também do dia que fui com minha família conhecer o parque Beto Carrero, mas uma chuvarada nos deu um banho, corremos para nos refugiar no circo, porém entramos pela entrada errada e, aplaudam-me!, entrei pelo palco, compartilhando com um domador o espaço no picadeiro.
As artistas:
Também nos inspiramos com mulheres, incríveis artistas que, na escrita, certamente, vão se desdobrar em várias personagens. A primeira delas foi King Kong Fran, personagem de Rafaela Azevedo, que usa recursos circenses para confrontar o patriarcado. Ela chama ao palco e assedia os homens da plateia, invertendo o papel comumente visto em nossa sociedade, e comumente explicado no circo: a mulher em posição submissa — é a ajudante do mágico, é o alvo do atirador de facas, também é ela quem entra na caixa para ser cortada ao meio. O circo reflete a organização social que nos é imposta, e é sobre ela que queremos falar em nosso livro. Também assisti a muitos vídeos da Giovanna Robatini, uma jovem que faz sucesso no YouTube, oriunda de uma das famílias circenses mais antigas do Brasil. Com ela aprendo o dia-a-dia da vida itinerante. Por último, tivemos um encontro virtual com Marina Krause, artista e professora de artes circenses, que nos relatou sua trajetória de vida, muito afetada pelo machismo. Com ela, também aprendi a importância da arte da resiliência e de acreditar nos sonhos. A energia de estar no picadeiro e a vibração da plateia faz tudo valer a pena. Eu entendo, sinto o mesmo pela escrita.
O espetáculo:
No circo, o show é a palhaça, a acrobata, a mágica, a contorcionista, a equilibrista, a bailarina, entre tantas! Na escrita, é hora do meu show. Meu tempo é limitado, acho nos fins de semanas o momento disponível para juntar todas as ideias anotadas e transformar em histórias. Vejo a lauda branca ganhar forma. Já não são mais letras, frases, parágrafos… são meninas, mulheres e senhoras… Cada uma com seus conflitos, com suas dores e seus sonhos. São Rafaelas, Giovannas, Marinas, Giovannas, mas também Micheles e Samaras. Na literatura todas as mulheres estão representadas em sua dor e em sua força. Ah, é que a arte…, ela une todas nós!
Michele Fernandes é gaúcha, autista, idealizadora da Editora Samsara. É uma das coordenadoras do Coletivo Escreviventes, autora dos livros Conta Comigo! Três Vezes Mulher (Ed. Voz de Mulher/2021), Eu prefiro o meu próprio crime (Ed. Arpillera/2023) e Tempestade em Céu Azul (Ed. Samsara/2024).
Este conteúdo faz parte do projeto “Da bailarina à palhaça: histórias de mulheres”. Proposta executada pelo Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), com recursos do Governo Federal e da Política Nacional Aldir Blanc.



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