O patinho rabugento e o rei leão
Atualizado: 5 de out.
Bel de Assis

Eu já estava lá, aquecendo os braços com as mãos para disfarçar meus ombros tímidos, encolhendo minha presença dentro de um casaquinho, escondendo o amarelo do meu sorriso atrás da taça de vinho tinto, quando ele chegou acelerado e esbaforido, com uma pizza média debaixo de cada braço e duas costeletas gordurosas.
Ele chegou para uma noitada quarto e sala entre amigos, mas agiu como se fosse uma festa surpresa feita sob medida para seu pé-direito comprido. Seu corpo espaçoso. Seu peito aberto. Sua cabeça arejada. Sua alegria com closet e suíte. E logo começou a circular, como se sua missão fosse ser visto por todos.
O tempo inteiro ele agiu como se algo importante fosse acontecer. Como se ele fosse o acontecimento. E logo todos queriam estar perto dele. Todos queriam abraçar, beijar e escutar aquele homem como se ele fosse um guru prestes a fazer uma grande revelação. Menos eu, é claro. Eu preferi ficar longe daquele desconhecido. Preferi acender um cigarro atrás do outro para poder me ausentar melhor.
Da varanda eu tragava a vergonha e soltava certa antipatia, tentando descobrir se ele por acaso estava vendendo gargalhadas por R$1,99. Se aquela se tornaria uma sexta-feira promocional da simpatia. Revirei os olhos, entortei a boca, me encostei na amiga mais próxima e perguntei quem era aquele homem de camisa florida-soumaiseu e alpargatas verde-bichosemgrilo, aquele ali que não para de dançar e cantar.
Estava vendo a hora de ele começar a aplicar o jogo do contente nos amigos. Se não fosse tão Shrek, eu poderia chamá-lo de Pollyanna, aquela dos livros que eu lia quando criança enquanto grudava chiclete na gengiva, arrancava cutícula das unhas com os dentes.
Eu passei horas, dias, deitada na cama lendo, revoltada com as injustiças cometidas contra a Pollyanna. Eu chorava e me engasgava com a bala soft e com a capacidade que aquela menina tinha de ver o lado bom de tudo de ruim que lhe acontecia. Aquele otimismo todo dela descia arranhando a minha garganta. Até hoje sinto um leve amargor quando tenho que engolir as pessoas bondosas demais, confiantes demais, seguras demais. E se vierem com gratidão pra lá, gratidão pra cá, pode saber que vou ficar verde-enjoada.
Houve um tempo que eu achava que o pollyannismo só podia ser coisa de gente conformada, fugidia, insensível ou alienada. Gente incapaz de complexificar a existência e de captar a realidade como ela de fato se apresenta. Pode até ser que em alguns casos meu preconceito seja confirmado, e nada impede que se diga a mesma coisa sobre gente triste, pessimista ou negativa.
Mas as pessoas de bem com a vida me irritam mesmo porque revelam minhas sombras. Elas me desconcertam. Me intimidam. Eu não sei muito bem como é ser livre assim como elas. Ainda não sei como é estar no controle total da minha vida. Não é fácil, para mim, ter coragem e ousadia. E aquele ogro petulante me fez perceber o desconforto que eu ainda sentia em minha própria companhia.
Notando minha aversão, minha amiga respondeu minha pergunta topetuda dizendo que aquele ogro era demais e que sua extravagância não era para menos. Afinal, a mãe dele era do mesmo jeitinho e, como se não bastasse, ela transformou o nascimento do filho num filme da Disney: a primeira cena se deu em casa, pouco antes do meio-dia de um dia qualquer leonino, quando as contrações começaram a ficar mais intensas e frequentes, mas ela não queria dar o bichinho à luz antes do previsto e sem a presença de seu amado marido. Ele estava incomunicável porque preso em mais um turno de trabalho. A bolsa precisou romper para que ela fosse atrás de um táxi na rua.
O jeito calorento e acalorado, dizia minha amiga, o ogro provavelmente herdou da quentura que fazia dentro daquele táxi, enquanto o motorista dirigia por ruas alternativas, tentando se livrar do trânsito prestes a parir o caos da hora do almoço. Suando a testa e o bigode para deixar aquela passageira congestionada a tempo no hospital.
Ouvindo aquela história, me toquei que o frio que faz valer meus eternos casaquinhos poderia ser aquele que minha mãe sentiu dentro do quarto insípido da maternidade, olhando o spot do teto, que emanava luz branca, à qual sempre fui avessa, esperando o momento de me parir, isso há 25 anos.
E me questionei se a necessidade que ainda sinto de me entorpecer quando estou em risco, ou até quando resolvo arriscar algo novo em minha vida, tem alguma relação com o fato de minha mãe ter ficado ali sozinha, deitada numa cama aparelhada, sentindo os braços ficarem pesados e a boca formigar. Sentindo que algo estava muito errado porque a anestesia resolveu subir em vez de descer da cintura para baixo. E com o resto de força que ainda tinha, ela se debateu, torcendo para que alguém na sala de espera a ouvisse. Que um enfermeiro passando pelo corredor nela reparasse.
Minha mãe já estava quase desmaiando quando sentiu a médica comprimir seu peito com violência e viu a equipe toda ao redor da cama, como ao redor do taxi que levava a mãe do ogro ao hospital pessoas foram se juntando. Todos queriam saber por que o motorista resolveu desligar o motor no meio da avenida engarrafada, sair do carro e abrir a porta do passageiro. E ele quase se apavora ao ver a mulher deitar calmamente no banco, pedindo ajuda e dizendo a hora é agora. O ogro tinha pressa para nascer. Pressa para ver a mãe e o mundo, deduziu a minha amiga, certa de que ele era capaz de captar a alta vibração de cada pessoa que saía do seu carro e se embrenhava entre as outras até conseguir colar a cara na janela do táxi e sair contando aos demais o que estava acontecendo lá dentro.
E cada notícia curtinha de um curioso reverberava como uma longa Oooooooolaaaaa, que se espalhava pela multidão que tomava a avenida parada pelo taxi, aquecendo a torcida. E foi num desses vai e vem de novidades que o taxista recebeu uma garrafa de água de um entregador de comida. Em vez de levar o pedido para um escritório de advocacia, resolveu parar, ajudar e fazer parte daquilo que ficaria para a história um dia.
O taxista mal teve tempo de refrescar o rosto da mulher, que se contraía sem aflição, sem esforço para respirar os ares de estufa automobilística. E nem bem ele terminou de lavar as mãos quando a cabeça do filhotinho escapuliu da vagina. E foi lagrimando as bochechas que ele puxou e colocou o recém-ogrinho no peito da mãe toda derretida.
Em seguida, o parteiro pôs fogo numa faquinha de canivete do vizinho do carro ao lado. Ele cortou o cordão que ligava a mãe ao ogrinho, depois tirou a camisa, exibindo as marcas de bolinhas massageadoras em suas costas, pois de que outra forma ele poderia embrulhar e fazer o rei leãozinho ser relembrado, tal como a mãe pedia?
O taxista levantou o embrulhadinho no colo, fazendo valer os aplausos, pulos e gritos da multidão que torcia. E o ogro berrou como eu berrei suspensa no ar pelas pernas, quando fui separada da minha mãe durante o parto, que descansava sob o efeito geral da anestesia.
Não sei se meu nascimento gerou a sensação de impotência e desamparo que às vezes me domina a vida, mas sinto que ela perdeu força ali, naquele momento, quando ouvi a história do ogro, à qual tive de brindar com minha amiga. E pode perder muito mais se eu for grata pela minha mãe e pela cesariana, que me deram a vida, pensei, já ficando bêbada e totalmente pollyannizada, vendo o ogro girar na pista.
Bel de Assis é graduada em Jornalismo e em Publicidade pela UnB. Fez quatro especializações. Uma delas foi em Revisão de Textos, pela PUC-Minas, que lhe rendeu a oportunidade de trabalhar com ainda mais entrega às palavras. Pelo coletivo Uma casa toda nossa, trabalha como leitora crítica, revisora e escritora.



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