Por uma literatura (e um país) antirracista
Atualizado: 27 de set.

No dia 16 de agosto, a autora Lilia Guerra publicou um relato em sua newsletter sobre sua experiência em participar da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty. Ela conta, primeiramente, que recebeu com muito entusiasmo o convite de participar da programação oficial. Historicamente, o mercado literário (eventos, editoras, leitores) sempre deu mais destaque para autores homens e brancos, então, quando uma autora negra é celebrada, todas nós celebramos.
Porém, infelizmente, (parece que) o debate antirracista ficou apenas na curadoria e nas mesas do evento, onde o maior público podia presenciar, mas nos bastidores a festa não foi tão bonita assim. A autora relata que, duas semanas após o evento, ela recebeu uma comunicação da gestão da FLIP dizendo que a pousada onde Lilia ficou hospedada perguntava se ela havia levado embora um lençol e uma manta do estabelecimento. Todos sabem que uma manta não é algo que se leva “sem querer”, que para levar algo com este volume é preciso um esforço para fazer caber na mala. Logo, quem pergunta a uma mulher negra se ela levou roupas de cama que não lhe pertenciam está a acusando de furto. E quando acusam uma pessoa negra de furto sem apresentar nenhuma prova, nós sabemos qual nome dar a isso: é racismo.
Ultrapassadas todas as boas questões já postas, inclusive com relação à excelência do trabalho literário de Lilia e sua festejada presença nas mesas oficiais da FLIP, nós, como um coletivo múltiplo, diverso e firme na luta antirracista, estamos nos perguntando quais outras práticas precisam mudar para que, nunca mais, nenhuma escritora negra tenha que se submeter a essa experiência de racismo a que foi exposta Lilia Guerra no pós FLIP.
Foi a partir desse questionamento, que saímos em busca das políticas afirmativas da organização.
Em sua página oficial a FLIP assim se define:
“A Associação Casa Azul é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, criada em 2002. É a realizadora da FLIP– Festa Literária Internacional de Paraty e desenvolve projetos nas áreas de arquitetura, urbanismo, educação e cultura. Além disso, a Casa Azul atua em prol da requalificação urbana sustentável em Paraty, buscando a inclusão social e o desenvolvimento do interesse pela leitura.” (grifos nossos)
Não temos acesso aos estatutos, mas consideramos importante pensar, a partir desse lamentável episódio, se a FLIP adota ou não ações afirmativas e inclusivas que viabilizem de forma respeitosa, plena e democrática a participação de escritoras(es/ies) múltiplas(os/es), numa festa, em princípio, também múltipla.
Dito de outro modo, a FLIP se preocupou em ser antirracista, antes de apenas parecer antirracista?
Essa é uma pergunta necessária, quando nos damos conta de que as práticas inclusivas se dão apenas pelas bordas. Todos desejamos a representatividade, mas não apenas. Porque, se o preço da representatividade for uma injúria cometida (através de e) por uma gestão despreparada, a sensação que fica é que o desejo da representatividade não se verificou para nenhuma das partes.
Em maio deste ano a Ministra Vera Lúcia Santana de Araújo, uma mulher negra, integrante do Tribunal Superior Eleitoral, foi impedida de entrar no auditório do Centro Empresarial da Confederação de Comércio em Brasília, onde a Advocacia Geral da União tem sede e promovia um evento, mesmo se identificando e apresentando sua carteira funcional. A recepção terceirizada, num ato racista e discriminatório, impediu a sua entrada.
Destacamos aqui essa notícia porque é importante equiparar as situações. Se, mesmo na FLIP ou num governo progressista, nós estamos assistindo esses episódios, a única conclusão possível é a de que estamos fazendo isso de forma errada na medida em que não atacamos e, muitas vezes, sequer mencionamos o racismo institucional.
Também devemos nos questionar se, tanto no caso Lilia Guerra, como no caso da Ministra Vera Lúcia, é possível aceitar como desagravo a imputabilidade da conduta para um membro da gestão, ou para a empresa terceirizada, como tentou a AGU. Não seria, em ambos os casos, responsabilidade das Instituições agir de forma preventiva e educativa com a finalidade de impedir, coibir, impossibilitar episódios dessa ordem, bem como planejar ações de reparação, caso se deem?
O que o episódio de racismo pode revelar sobre o cotidiano de Paraty, embora saibamos que todo o país é estruturado com base no racismo? Como se manifestou a Prefeitura do Município? E os demais entes federativos, já que é uma festa de impacto nacional e internacional que fala sobre nossas culturas literárias?
Como bem nos ensina Jurema Werneck, pesquisadora negra, médica, diretora-executiva da Anistia Internacional no Brasil, o racismo institucional vai além da ausência ou ineficiência de ações de combate ao racismo:
“Atualmente, já é possível compreender mais do que uma insuficiência ou inadequação, [...] é um sistema performativo ou produtivo, capaz de gerar e legitimar condutas excludentes tanto no que se refere a formas de governo quanto de accountability.”
Nesse sentido é que o debate que se impõe — é já com atraso — inclusive para que fujamos do gozo de ver algum(a) trabalhador(a) responsabilizado(a) como resposta exemplar. As instituições têm como prática a adoção do discurso de que os responsáveis serão punidos, eximindo-se enquanto gestão.
Não basta só parecer antirracista. É preciso enxergar e combater o racismo estrutural que vive nas instituições públicas e privadas. É preciso que pessoas negras não sejam apenas convidadas para os eventos literários, mas que estejam em cargos de liderança dentro das organizações. E cabe a nós cobrarmos estas mudanças. Cabe a nós, como leitoras, também olhar para a multiplicidade de nossas leituras. Ser antirracista começa por comprar, ler, recomendar autores e autoras negros. Quem você está lendo hoje?
Escrito por Alina Kariri Mina, Érika Gentile e Samara Hartt, após conversas entre todas as autoras do projeto Portas Abertas, sem as quais este texto não teria saído.
Referência: Racismo institucional e saúde da população negra, de Jurema Werneck



Comentários