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Sentadas na calçada

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
16 de jul. de 2025
2 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Victoria Saturno


Senhora sentada na porta de uma casa, se apoiando em uma bengala.

Ao descer do ônibus depois de mais um dia de aula na faculdade, caminho mais uns metros, viro à esquerda e já estou em frente ao portão de onde eu moro, tiro minha chave de dentro da bolsa e tento abrir, mas algo está errado… Merda! Com certeza emperrou na parede de novo. E realmente, depois de mais alguns segundos tentando, tenho quase certeza…


– O portão emperrou, que nem o diabo consegue abrir mais – disse praticamente do meu lado, sentada numa cadeirinha, minha avó dona Inês.


– Amém, então, não é?! – respondi.


– Vai ficar preso aqui do lado de fora também, pelo visto!


Tentei mais uma vez girar a chave e abrir o portão, mas ele havia emperrado de maneira surpreendente dessa vez. E pelo visto, por conta do horário, não tem ninguém do lado de dentro que pudesse abrir… Tive que esperar sentada no meio-fio. Ficamos minutos em silêncio apenas vendo as pessoas passarem até que uma delas foi familiar, um moço que sempre passava de bicicleta vendendo pão, e eu adorava vê-lo. Hoje em dia talvez nem me reconheça mais, só reconheceu a minha avó, que o cumprimentou. Abaixei a cabeça e voltei a olhar para o nada, notei a bicicleta indo embora, mas fui surpreendida com um pão próximo do meu rosto. Minha avó tinha comprado, assim como fazia quando eu era criança e passávamos um tempo sentadas na rua… é isso! Passávamos um tempo sentadas na rua! Minha vida agitada me fez esquecer deste detalhe, e também, com o passar do tempo, desde minha transição de gênero, andei me afastando dela. As horas passavam e o silêncio continuava, acho que ela ainda não me entende e não sabe se expressar diante disso, não sei o que fazer, apenas sei do que eu queria diferente…


– Eu errei agora há pouco, não foi? – falou dona Inês, e eu apenas concordei. E nesse instante meu irmão chegou e conseguiu abrir o portão. Quando já estava prestes a subir as escadas, eu escuto: – Ficarmos presas até que não foi ruim, me fez lembrar dos velhos tempos!


Abro um sorriso bobo, ela não vai mudar de um dia para o outro… Mas ficar sentada de frente para a rua parece ter sido um começo para mudanças.


Victoria Saturno, mulher transgênero de 20 anos de idade, estudante de cinema e audiovisual pela Universidade Jorge Amado em Salvador, Bahia. Escritora com um conto publicado na coletânea chamada Nós: Textos de autoria feminina. Roteirista e diretora de projetos audiovisuais universitários. A arte se inseriu em sua vida de forma mais aprofundada ainda no ensino médio, onde buscava sempre a realização das atividades escolares envolvendo narrativas diversas e criativas.


 
 
 

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