Sentadas na calçada
Atualizado: 5 de out.
Victoria Saturno

Ao descer do ônibus depois de mais um dia de aula na faculdade, caminho mais uns metros, viro à esquerda e já estou em frente ao portão de onde eu moro, tiro minha chave de dentro da bolsa e tento abrir, mas algo está errado… Merda! Com certeza emperrou na parede de novo. E realmente, depois de mais alguns segundos tentando, tenho quase certeza…
– O portão emperrou, que nem o diabo consegue abrir mais – disse praticamente do meu lado, sentada numa cadeirinha, minha avó dona Inês.
– Amém, então, não é?! – respondi.
– Vai ficar preso aqui do lado de fora também, pelo visto!
Tentei mais uma vez girar a chave e abrir o portão, mas ele havia emperrado de maneira surpreendente dessa vez. E pelo visto, por conta do horário, não tem ninguém do lado de dentro que pudesse abrir… Tive que esperar sentada no meio-fio. Ficamos minutos em silêncio apenas vendo as pessoas passarem até que uma delas foi familiar, um moço que sempre passava de bicicleta vendendo pão, e eu adorava vê-lo. Hoje em dia talvez nem me reconheça mais, só reconheceu a minha avó, que o cumprimentou. Abaixei a cabeça e voltei a olhar para o nada, notei a bicicleta indo embora, mas fui surpreendida com um pão próximo do meu rosto. Minha avó tinha comprado, assim como fazia quando eu era criança e passávamos um tempo sentadas na rua… é isso! Passávamos um tempo sentadas na rua! Minha vida agitada me fez esquecer deste detalhe, e também, com o passar do tempo, desde minha transição de gênero, andei me afastando dela. As horas passavam e o silêncio continuava, acho que ela ainda não me entende e não sabe se expressar diante disso, não sei o que fazer, apenas sei do que eu queria diferente…
– Eu errei agora há pouco, não foi? – falou dona Inês, e eu apenas concordei. E nesse instante meu irmão chegou e conseguiu abrir o portão. Quando já estava prestes a subir as escadas, eu escuto: – Ficarmos presas até que não foi ruim, me fez lembrar dos velhos tempos!
Abro um sorriso bobo, ela não vai mudar de um dia para o outro… Mas ficar sentada de frente para a rua parece ter sido um começo para mudanças.
Victoria Saturno, mulher transgênero de 20 anos de idade, estudante de cinema e audiovisual pela Universidade Jorge Amado em Salvador, Bahia. Escritora com um conto publicado na coletânea chamada Nós: Textos de autoria feminina. Roteirista e diretora de projetos audiovisuais universitários. A arte se inseriu em sua vida de forma mais aprofundada ainda no ensino médio, onde buscava sempre a realização das atividades escolares envolvendo narrativas diversas e criativas.



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