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Um nome para a vida

Foto do escritor: Uma casa toda nossa
Uma casa toda nossa
23 de out. de 2025
6 min de leitura

Atualizado: 5 de out.

Ravana J. F. Jesus


Semente germinando na terra

Como de costume, Cecília abria as janelas de casa antes mesmo de o sol nascer, gostava de sentir o aroma da manhã de olhos fechados, inspirando o orvalho que trazia o início do dia. Fiel aos costumes de um pequenino vilarejo do interior de Minas Gerais, ela preparava o café e tomava o desjejum na companhia sonora dos pássaros, logo estava à beira do portão a esperar pelo senhor Anastácio, um dos poucos moradores do local que tinha um automóvel. Anastácio tornou-se o elo entre os moradores da vila e a cidade mais próxima, que ficava a duas horas de tempo, como ele dizia.


– Dia, Cecília! Tudo bão com seu Antônio e dona Izabel?


– Bom dia, senhor Anastácio, estão todos bem, graças a Deus.


– Hoje é dia dos mantimentos, ocê vai querer?


– Não. Ainda temos para a semana, obrigada.


Cecília se despedia e entrava, a moça morava com os pais em uma casa modesta, mas muito aconchegante, rodeada de plantas e árvores frutíferas nativas do cerrado. Seus pais eram dois senhores inseparáveis, casaram-se ainda adolescentes e, por muito tempo, não conseguiram engravidar, até que o milagre aconteceu: uma menina, linda e saudável, completou a união daquele casal tão apaixonado.


Sempre no horário, Cecília despertava os pais e pedia a benção, servia o café com muito carinho e atenção, dedicava a manhã em cuidados e mimos àqueles que tanto amava. Entre os afazeres matinais, estava seu lindo jardim, cultivava azaleias, cravos, hortênsias e girassóis, suas prediletas, e tantas outras flores que enfeitavam seu quintal, nomeava todas elas, dizia ser necessário dar nome à vida dos que tinha como companhia. E assim seguiam as manhãs da jovem, entre a beleza das flores e o carinho aos velhinhos, como ela carinhosamente os chamava.


O barulho das crianças na rua anunciava o horário das aulas, Cecília lecionava no segundo turno da única escola da vila, esbanjava sorrisos e simpatia entre os alunos, era querida por todos. Concluiu o magistério logo após o ensino médio, realizando o sonho de ser professora. Cecília sabia a importância da educação, principalmente para as crianças do lugarejo. Era preciso concretizar as possibilidades, e assim ela o fazia, com respeito e afeto aos seus alunos.


Cada dia de trabalho era um desafio, Cecília saía da escola sempre reflexiva, seus pensamentos a levavam à triste realidade de algumas crianças, em especial o pequeno Joel, por quem de fato se sentia mais comovida. Era preciso fazer mais, ela sempre se cobrava, apesar dos esforços que iriam além do lecionar.


Durante a noite, entre o cuidado que dispensava aos pais e as tarefas domésticas, praticava a paixão pela escrita, rascunhava um romance e pensava um dia torná-lo público, declamava poesias na tranquilidade do seu quarto e alimentava a alma com palavras doces e sutis, por fim adormecia.


A rotina da jovem seguia seu curso normal, mas alguma coisa não estava no seu devido lugar. As manhãs já não eram as mesmas, não havia o encantamento ao abrir as janelas, sem apetite, não se alimentava direito, o cantar dos pássaros tornou-se vazio, já não fazia questão de receber o senhor Anastácio, que sempre perguntava por ela, o trabalho tornou-se insignificativo. Embora continuasse com a mesma atenção aos pais, o silêncio dominava a relação entre eles, notando o distanciamento da filha, dona Izabel questionou:


– Filha, está acontecendo alguma coisa?


– Não, mãe. Estou bem, apenas muito cansada.


– Tem certeza?


– Sim. Dormirei um pouco, logo estarei melhor.


Cecília estava com a voz embargada, mesmo assim, tentou passar tranquilidade à mãe. Sentia-se realmente muito cansada. Ela se recolheu ao íntimo do seu quarto, olhar perdido, pensamentos confusos, estava angustiada, mas não entendia o real motivo. Não conteve as lágrimas, chorava copiosamente em silêncio, até que adormeceu em um sono pesado. Teve pesadelos assustadores, despertou exausta, já passara do meio-dia, inerte na cama por horas, Cecília não foi trabalhar. No dia seguinte, pediu ao pai que fosse até a escola justificar sua falta, aproveitou os créditos que tinha devido aos trabalhos extras e ficaria em casa até se recuperar. Uma tentativa em vão.


O tempo decorreu vagaroso, o jardim de Cecília era seu próprio reflexo, seco, sem cor, sem vida. Dona Izabel notara a apatia da filha, que insistia não estar doente, mas sim muito cansada. A velha senhora aceitou os reclames de Cecília e a deixou descansar como queria. A moça mal saía do quarto, sequer abria as janelas, as folhas em branco do seu romance ansiavam um desfecho, sua voz calou-se indiferente aos poemas, seus olhos reclamavam a claridade da luz. Não se emocionava com o barulho das crianças na rua. Comia pouco, poucos também foram os banhos, sentia-se fraca, desmotivada, não se deixava ouvir.


Cecília emudeceu-se, perdeu o brilho que sempre irradiou, o compromisso com o trabalho, o carinho pelos seus alunos, os sorrisos que distribuía com sinceridade, a atenção devida aos pais já idosos, o cuidado com seu jardim, a inspiração para a escrita. Ela enlutou-se para a vida que tanto amava. Não entendia o porquê de sentimentos tão infelizes reinarem tão soberanos, não tinha força, embora quisesse mudar todo aquele cenário, não conseguia, Cecília entregou-se à escuridão.


– Professora? Professora? – A moça escutou ao longe um chamado.


Com os olhos ainda cerrados, pensou estar sonhando. Porém, reconheceu aquela voz doce, era Joel, seu aluno querido, tentou esboçar um sorriso quando ouviu o pai bater levemente na porta, ele a abriu, acendeu as luzes e foi ao encontro da moça.


– Cecília, minha filha, o Joel está te chamando.


– Diga a ele que estou dormindo, pai, ainda estou muito cansada.


Joel não se deu por vencido, e todos os dias, após a escola, passava na casa de Cecília, chamando pela professora, mas sempre uma desculpa fazia o menino retornar cabisbaixo para casa.


Um dia, sentindo-se decepcionado, Joel disse a si mesmo que seria a última vez que procuraria sua professora, e lá foi o menino:


– Professora? Professora?


Joel encheu o peito e gritou o mais alto que podia. O pai de Cecília novamente arrumou outra desculpa, mas, desta vez, ele não foi embora. Disse que esperaria a professora despertar e ficou sentado à beira do portão. Após algum tempo, seu Antônio o convidou para entrar e ofereceu laranjas, que foram prontamente aceitas, o velho senhor reparou que o menino tinha um pequeno embrulho nas mãos e perguntou:


– Joel, o que é isso em suas mãos, posso saber?


O menino corou, colocou as mãos nos bolsos do short tentando esconder o pacotinho, o senhor Antônio o encarou e disse:


– Já sei, é um dinossauro!


Joel soltou uma gargalhada contagiante, isso fez com que Cecília se assustasse, ela ficou atenta à conversa do pai com seu aluno e sorriu. Foi um diálogo emocionante pela simplicidade e inocência da criança, os dois ficaram por muito tempo compartilhando experiências e sorrisos. Senhor Antônio atentou-se para a hora e sugeriu levar o garoto para casa, mesmo triste por não ver Cecília, ele aceitou. Já estavam no portão, quando surpreso o garoto se virou.


– Joel?


– Professora!


O menino correu ao encontro da professora, eles se uniram em um abraço fraterno, delicado, o que fez transbordar intensas emoções em Cecília. Em silêncio ela sorria, em silêncio se orgulhava. O abraço foi interrompido quando o embrulho caiu das mãos de Joel, ele se desculpou e a moça sorriu dizendo:


– O que é isso, Joel?


– Um presente!


– Presente?


– Sim… um presente pra você, professora!


Cecília emocionou-se ainda mais, agradeceu e perguntou a Joel qual era o presente. Ele abriu o pacotinho e mostrou para a professora.


– São sementes, Joel? Você veio trazer sementes?


– Não, professora, não são sementes, eu vim trazer esperança pra você.


– Esperança?


– Sim. Lembra que me disse que temos que nomear a vida?


– Sim.


– Então, estas são Esperança! Quando a senhora plantar, vai crescer e florescer amor.


Joel se despediu. Cecília olhou para o céu, se voltou comovida para as sementes, em suas mãos, e entrou para casa sorridente e repleta de esperança.


Ravana J. F. Jesus é Pedagoga de formação, membra da Academia Matozinhense de Letras. Autora do livro Flor do Morro e Pedacinho do céu, além de outras obras em coletâneas. Faz parte do coletivo Ruptura Negra.

 
 
 

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